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Problemas na decodificação dos sons prejudica desempenho escolar

15/01/2018
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Problemas na decodificação dos sons prejudica desempenho escolar

Distúrbio do processamento auditivo central (DPAC) afeta o sistema nervoso central. Reabilitação possibilita vida normal aos pacientes.

Um filho que tira boas notas na escola é motivo de orgulho para qualquer pai ou mãe. O bom desempenho depende de vários fatores, como a motivação e habilidade do aluno. Mas o que fazer quando a criança apresenta dificuldades de leitura, escrita, compreensão de textos, problemas de memória e não consegue acompanhar as aulas? Rita de Cássia Cassou Guimarães, otorrinolaringologista e otoneurologista, explica que estes são alguns sintomas do distúrbio do processamento auditivo central (DPAC). “O DPAC afeta a capacidade de entendimento dos indivíduos”, afirma.

Quem sofre com o DPAC ouve, mas não consegue interpretar os sons. Outros indícios do distúrbio no indivíduo são dificuldades para manter atenção aos sons, é preciso ser chamado várias vezes para responder, não entende ideias abstratas, piadas ou expressões de duplo sentido, pede para repetir as informações com frequência e tem problemas de fala. “A pessoa também não consegue acompanhar uma conversa com outras pessoas falando ao mesmo tempo e tem dificuldades para localizar a origem dos sons. É comum a troca de letras, como L, R, E, S e CH”, ressalta.

Os indivíduos com DPAC não possuem problemas no ouvido e sim no sistema nervoso central. O transtorno afeta o processamento dos estímulos sonoros, que além de não ser feito corretamente é mais lento do que o normal. Sem a decodificação perfeita, os sons tornam-se ruídos incompreensíveis. “O processamento auditivo pode ser definido como o processo de decodificação das ondas sonoras, que tem início na orelha externa e termina no córtex cerebral. É a capacidade de analisar, interpretar e associar as informações sonoras”, destaca.

O principal obstáculo é identificar o DPAC – muitas vezes o paciente é diagnosticado com outras patologias e é submetido a tratamentos ineficazes. A demora no diagnóstico correto e a concomitância de outros distúrbios, como a dislexia e o déficit de atenção (TDAH), contribuem para a baixa auto-estima da criança. “Não existe um consenso sobre as causas do DPAC. Permanência em UTI-Neonatal por tempo superior a 48 horas, fatores genéticos, otites nos três primeiros meses de vida, e experiências auditivas insuficientes durante a primeira infância podem ser associadas ao distúrbio”, esclarece.

Outras hipóteses afirmam que o DPAC é desencadeado por lesões nas vias de condução dos sons, doenças neurodegenerativas, dependência química e alcoolismo materna, rubéola, sífilis, toxoplasmose. Nenhuma destas suspeitas foram comprovadas cientificamente. “Para diagnosticar o DPAC é preciso fazer testes especiais, exames que avaliam a audição central, o cérebro, a mente e o processamento dos sons e uma entrevista detalhada com o paciente, que ajuda a determinar as melhores estratégias para a reabilitação”, observa.

A especialista enfatiza que ainda não há cura para o DPAC, mas é possível ‘ensinar’ o cérebro a responder a novos estímulos. Isto é possível graças à neuroplasticidade – capacidade para se moldar a uma nova realidade. “É fundamental que o tratamento seja interdisciplinar, com a atuação de otorrinolaringologistas, fonoaudiólogos, neuropediatras, psicopedagogos e neuropsicólogos. A reabilitação proporciona melhora na qualidade de vida e um cotidiano normal para os estudantes”, evidencia Rita, mestre em clínica cirúrgica pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Com o tratamento, o paciente aprende a desenvolver outros mecanismos e caminhos diferentes para superar o distúrbio. Não há um tempo exato de reabilitação, tudo depende da gravidade do DPAC. O suporte da família e da escola é imprescindível para a melhora do quadro. “O aluno que tem o problema deve sentar na primeira carteira e o professor deve ser orientado a falar devagar e olhando para o estudante, assim a criança não fica dispersa”, acrescenta a médica, responsável pelo Setor de Otoneurologia da Unidade Funcional de Otorrinolaringologia do Hospital de Clínicas da UFPR.

Dra. Rita de Cássia Cassou Guimarães (CRM 9009)

Otorrinolaringologista, otoneurologista, mestre em clínica cirúrgica pela UFPR

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